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PORTO VELHO – Há tempos pesquisadores, jornalistas e cientistas debatem os efeitos da ação do mercúrio usado desde o final dos anos 1970 nos garimpos da região Norte na população e no meio ambiente. Agora, o pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Igor David, acaba de comprar em estudo que além do mercúrio, os peixes do rio Machado, o segundo mais importante de Rondônia, banhando as cidades de Pimenta Bueno, Cacoal, Presidente Médici e Ji-Paraná, apresentam grande volume de microplástico no organismo. Ou seja, podem estar impróprios para o consumo humano.
A Amazônia possui a maior biodiversidade do planeta e sua bacia hidrográfica a maior diversidade de peixes de água doce do mundo. Contudo, a região passa por transformações decorrentes da atividade humana. Em diálogo com essa realidade, a Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com a Universidade Federal de Rondônia (Unir), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), estuda a contaminação por mercúrio e microplásticos em peixes do rio Machado, um afluente do rio Madeira que banha grande parte doestado de Rondônia. O objetivo do estudo é compreender as mudanças e as características do ambiente aquático da região amazônica.
O rio Machado é a segunda mais importante bacia hidrográfica do estado de Rondônia. Ele deságua no rio Madeira e forma uma sub-bacia do rio Amazonas. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mais de 50% da bacia do rio Machado foi desmatada até 2019. Atualmente, trechos do rio incluem áreas que sofreram alterações para abertura de pastagem, lavouras de soja, construção de centros urbanos e indústrias. A região amazônica possui, naturalmente, solos ricos em concentrações menores de mercúrio. No entanto, o desmatamento consiste na retirada da cobertura vegetal do solo e contribui para a introdução de mercúrio nos ambientes aquáticos, através do transporte do metal pela ação do sol e das chuvas.
De acordo com Igor David, docente do departamento de ciências exatas, biológicas e da terra (PEB) da Universidade Estadual do Norte Fluminense e um dos autores do trabalho, estudar o mercúrio em peixes é importante para entender a dinâmica desse elemento nos organismos. “Os peixes se alimentam e também servem de alimento para outros seres vivos. Por isso, é fundamental compreender como esse poluente está se distribuindo entre os organismos na cadeia alimentar. Esse estudo é ainda mais relevante em relação ao homem porque é questão de saúde pública. Afinal, comer um peixe com qualquer tipo de contaminação, principalmente por mercúrio, pode gerar complicações.”
O mercúrio é um metal pesado e um poluente altamente tóxico, em razão da sua capacidade de acumulação ao longo da cadeia alimentar. A quantidade deste metal, encontrado em diversos ambientes da Amazônia, principalmente em ecossistemas aquáticos, pode ser consequência das atividades do homem. Na região do Machado, as principais fontes de contaminação da água são: esgotos domésticos, resíduos industriais, lixeiras irregulares e o escoamento de produtos químicos agrícolas. Esses fatores causam a poluição por substâncias tóxicas, como óleo, graxa, nitrogênio, fósforo, bactérias patogênicas (que causam doenças no ser humano) e metais pesados. O mercúrio é naturalmente encontrado na região em concentrações mais baixas. Porém, as ações humanas impulsionam o crescimento deste poluente (unindo a porcentagem natural com a decorrente do homem) no solo, na água, nos sedimentos, no ar, nas plantas e nos animais.
Em relação aos animais, algumas espécies de peixes carnívoros são bioindicadores, ou seja, indicam a presença de poluição em ambientes aquáticos. Dentre eles, podemos citar a corvina da espécie Plagioscion squamosissimus, peixe nativo da Amazônia e importante tanto para a economia da região quanto como fonte de proteína das comunidades locais. Por ser uma espécie carnívora, ela pode acumular altas concentrações de mercúrio, que são transferidas para o homem através do consumo.
Nesse sentido, o estudo verificou a concentração total de mercúrio presente em peixes P. squamosissimus do rio Machado. A análise utilizou amostras de cinco locais e examinou 64 tecidos musculares e 54 tecidos hepáticos, relacionando-os com o tamanho dos peixes, o sexo e os períodos do ciclo hidrológico.
Os resultados confirmam que as concentrações de mercúrio (no músculo 1,09 ± 0,72 mg kg-1 e no fígado 1,28 ± 1,23 mg kg-1) estavam acima do permitido para consumo pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que estabelece 0,5 mg de concentração de mercúrio por grama. O estudo também observou que, quanto maior for o peixe, maior será a concentração de mercúrio.
“Essa região central do estado, muito próxima de onde foram coletadas as espécies, é uma região extremamente impactada pelo desmatamento. Portanto, vemos que isso é uma das principais questões. O desmatamento é um problema sério, principalmente nessa região central do estado de Rondônia. Ela não possui uma grande população, mas têm os impactos relacionados ao avanço do desmatamento e da pecuária no norte do país. Essas questões estão relacionadas à concentração de mercúrio”, explica Igor David.
A exposição de peixes ao mercúrio pode comprometer a reprodução, o crescimento e a imunidade. Os embriões expostos ao metal também podem desenvolver anormalidades, mudanças de comportamento e retardo no desenvolvimento, que reduzem as chances de sobrevivência. No ser humano, a intoxicação por mercúrio pode causar distúrbios, especialmente em grupos vulneráveis, como gestantes, bebês e crianças. O mercúrio pode afetar os seres humanos em diferentes níveis biológicos, causando danos ao sistema nervoso e aos rins.













