Notícia
Com um smartphone, três minutos e um pouco de curiosidade, qualquer brasileiro poderia saber os remédios retirados pelo presidente Michel Temer (MDB) na rede pública, caso ele se trate na rede pública, ou descobrir quando é a próxima consulta do governador Geraldo Alckmin (PSDB) num posto de saúde, caso ele se consulte em postos de saúde.
O aplicativo E-Saúde, do Ministério da Saúde, foi lançado com brecha de segurança que expôs durante mais de sete meses informações pessoais da saúde de brasileiros.
Dados como o histórico de remédios retirados no SUS (Sistema Único de Saúde) e as consultas agendadas nos postos de atenção básica estavam liberados mediante fornecimento de dois dados simples: o número de CPF e a data de nascimento.
Como políticos são obrigados a fornecer essas informações quando se candidatam, eram alvos frágeis. Com os dados disponíveis na internet, foi possível acessar o cartão SUS do presidente, do governador Alckmin e de João Doria (PSDB), o prefeito de São Paulo. Os dados médicos do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB), também estavam vulneráveis.
Após ser procurado pela Folha, o ministério admitiu a falha e mudou o sistema de cadastro para uso do aplicativo.
ACESSO PÚBLICO
Para entrar no perfil de qualquer usuário e acessar a ficha de medicações, o aplicativo também pedia para cadastrar um endereço de e-mail qualquer (a reportagem usou endereços inexistentes) e clicar em um botão confirmando ser o titular da conta.
Em seguida, aparecia na tela o cartão SUS da pessoa e o registro de retirada de remédios na rede pública desde 2008, além da agenda com as próximas consultas.
A reportagem acessou os dados dos políticos para confirmar a fragilidade do sistema, que poderia ser acessado por qualquer pessoa, com informações públicas. Nenhum desses dados de saúde será divulgado pela Folha.
O acesso à carteirinha do SUS, à lista de medicamentos e à agenda de consultas no serviço básico só foi possível porque nenhum dos políticos ainda havia se registrado no aplicativo. Quando o usuário faz o primeiro acesso, usando CPF e data de nascimento, cadastra uma senha.
As informações ficaram expostas desde que o aplicativo foi lançado, em junho de 2017. Teoricamente, era possível acessar os dados de qualquer brasileiro que ainda não tivesse acessado o sistema.
USO POLÍTICO
"Esse tipo de dado pode ter um uso político importante. A campanha do Trump [para a presidência americana] usou esse tipo de coisa", diz Rafael Moreira, cientista político da USP. "Um adversário usar contra o outro esse tipo de informação não é uma prática exatamente democrática."









