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Rondônia

Demitido de As Aventuras de Poliana, ator detona novela: 'Conservadorismo é pensamento do SBT'

Fonte: DO NOTÍCIAS DA TV

15/05/2019 21h 00min

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Demitido de As Aventuras de Poliana, ator detona novela:

Nando Cunha, 62 anos, que vive o personagem Ciro em As Aventuras de Poliana,
se despede da novela nesta quarta-feira (15). O ator não teve o contrato renovado
com o SBT e sai da história com uma morte trágica. Mas ele não vai sentir saudade.
Cunha destrói os textos de Iris Abravanel, que considera "de direita", e critica a
história por não ter representatividade racial ou de gênero. "Eles [SBT] não mostram
diversidade, têm medo de falar", diz.

Para ele, os roteiros criados pela mulher de Silvio Santos fazem alusão à
mentalidade do presidente Jair Bolsonaro, com conceitos conservadores. Mais do
que isso, pecam por serem fracos. "Falta um arco dramático maior, aprofundar os
personagens, as tramas... Fazer um gancho de um capítulo para outro", detona.

Demitido, ele afirma que não é o único a ter problemas com a história. "As pessoas
que me paravam na rua comentavam: 'Ah, a novela está chata, a novela enjoou'...
Não tem um gancho, uma trama para acompanhar, sabe?", continua o ator, que na
Globo havia atuado em novelas como Salve Jorge (2012) e Geração Brasil (2014).

Para Cunha, um dos problemas de Poliana é focar demais no núcleo infantil em
detrimento das histórias dos adultos. "Novela é novela, mas às vezes fica muito em
cima das crianças. Os personagens principais são elas", critica ele.

Nando Cunha só faz uma ressalva em relação a Duda Pimenta, intérprete de
Kessya, filha de Ciro. "Ela faz um trabalho maravilhoso, quando ela faz as cenas,
põe todo mundo no bolso. É a única [criança] negra no ar hoje, é a princesa de
Uganda."

Novela conservadora

Acostumado a fazer trabalhos mais liberais, Cunha se chocou com a mentalidade
conservadora que encontrou nos bastidores de Poliana --e ainda associa a trama à
eleição de Jair Bolsonaro. "Eu vejo um texto extremamente de direita. Eles querem
passar a história de uma família conservadora tradicional brasileira e coisas dessa
nova onda, e não mostram a diversidade", diz.

"Conservadorismo é o pensamento do SBT, do Silvio Santos e do presidente [Jair
Bolsonaro], que é amigo dele. A gente vive um retrocesso cultural, econômico e é a
partir desse poder que ele [Bolsonaro] está hoje eleito. E o SBT assina embaixo."

Para o ator, a trama promove um desserviço à sociedade ao não sair do lugarcomum. "A novela não dialoga com os diversos tipos de relacionamentos que temos
na sociedade; [não tem] um casal gay, as diversas formas de gênero..."

"O próprio negro é tratado de uma forma estereotipada. É uma família de negros
pobres em uma comunidade. Por que que não colocaram o meu personagem como
dono de colégio e a minha mulher como uma empresária bem-sucedida?", alfineta.
"Acham que estão fazendo um favor, mas não é favor nenhum. Só estão repetindo
os estereótipos de quase todas as emissoras."

Assédio e racismo

Além de detonar os textos da novela, o ator de 62 anos também critica o tratamento
que recebeu durante as gravações. Ele alega que foi vítima de racismo e assédio
por parte de uma produtora de elenco, cujo nome não quis revelar.

"Ela já colocou o dedo na minha cara, dizendo que eu não tinha de questionar nada,
que eu tinha de fazer o que ela mandava. Desculpa, mas ninguém manda em mim.
Eu tenho de acatar ordens da direção, que na verdade são direcionamentos de
cena. Eu sou um ator, um artista, eu não sou um funcionário de um banco para
receber ordens e ficar calado", explica ele

O ator classifica sua demissão de Poliana como algo libertador e diz que não voltaria
nunca a trabalhar na emissora de Silvio Santos se recebesse um novo convite.

Ou seja: se tiverem de gravar um flashback com Ciro, os diretores precisarão de um
novo ator para o papel --mas uma troca dessas não seria inédita para a novela, que
já substituiu a protagonista adulta, Milena Toscano, por Thaís Melchior.

Gastos do próprio bolso

Morador do Rio de Janeiro, Cunha reclama que precisava pagar as viagens para
São Paulo e a estadia na cidade do próprio bolso, sem nenhuma ajuda de custo do
SBT.

"Era complicado, porque o SBT não banca passagem para ninguém, nem estadia.
Como eu moro no Rio, eu saía de manhã para chegar lá [no SBT] no horário. Às
vezes, ficavam chateados porque eu chegava atrasado se a ponte aérea dava zica,
ou porque o avião não subiu, por neblina ou mau tempo, mas a culpa não é minha.
Eu sempre comprei as passagens para chegar de manhã."

"Em relação às passagens e à estadia [que eu bancava], é uma coisa que eu não
gosto de contestar, porque já estava no contrato. Mas é meio desgastante, era
metade do salário --que já não era lá aquelas coisas."

A notícia da demissão

Nando Cunha descobriu que Ciro morreria por meio de uma conversa dos atores da
novela no WhatsApp, um aplicativo de troca de mensagens.

"Alguém colocou no grupo que meu personagem havia morrido. Eu fiquei sabendo
assim [que sairia da novela]. Para você ver como são as relações lá dentro. Depois
um diretor veio falar comigo e disse: 'A casa não quer mais renovar com você'. Eu
falei: 'Tudo bem'. Ele disse: 'Mas nós vamos dar um final digno para o seu
personagem'. O fim digno foi um teto caindo na cabeça dele", critica o ator.

Outro lado

Procurado, o SBT refutou as acusações de Cunha.

"No roteiro da autora Iris Abravanel, a morte do personagem Ciro já estava prevista.
Provavelmente o ator imaginou que seu desempenho poderia reverter a história, o
que não ocorreu. Foi verificado que todas as outras acusações de Nando Cunha
descritas neste e-mail [enviado pelo Notícias da TV] não têm nenhum fundamento,
ao contrário, o ator sempre foi bem tratado por todos da equipe de teledramaturgia",
informou a emissora.

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