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ESPORTE

Para tentar superar morte do pai, sensei cria projeto social de karatê em Parecis

Projeto atende gratuitamente cerca de 50 crianças e adolescentes em Parecis, interior de Rondônia. Iniciativa funciona em parcerias com empresas da cidade.

Postada em 05/10/2017 23:20hrs
Fonte: Do Globo Esporte

Para tentar superar morte do pai, sensei cria projeto social de karatê em Parecis

Fundada há pouco mais de um ano e meio, uma associação de karatê, da pequena cidade de Parecis, na Zona da Mata de Rondônia, vem ganhando destaque no estado devido às conquistas no tatame e fora dele. Como acontece com várias iniciativas ligadas ao esporte, a falta de apoio é um adversário de peso que constantemente precisa ser vencido por ippon (golpe perfeito).

O projeto chegou a ter nove alunos classificados para disputar o Campeonato Brasileiro, porém, por falta de recursos, nenhum conseguiu viajar para a competição nacional. Assim como as dificuldades por falta de recursos, o projeto teve início após um grande golpe na vida do idealizador, a morte do pai, principal incentivador para inserção dele no mundo das artes marciais.

O projeto Acreditar é Preciso da Associação Oliveira de Karatê, foi criado em abril de 2016, pelo sensei Bruno Oliveira, de 28 anos. A iniciativa funciona em Parecis, cidade com pouco mais de 5 mil habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, IBGE. No entanto, os frutos do trabalho já são colhidos fora das divisas do pequeno município.

Através de uma parceria com uma cooperativa de créditos e de empresas locais, o projeto atende de forma gratuita cerca de 50 crianças e adolescentes. Também há um grupo formado por adultos que quer aprender e praticar a modalidade esportiva.

- Os alunos são quase todos oriundos de famílias carentes da cidade. Além das aulas, sempre que há alguma família passando por dificuldades, a gente se une, arrecada alimentos e doa para ela. Às vezes quando algum aluno adoece e não consegue tratamento adequado ou rápido no setor público, a associação tenta custear o tratamento com medicamentos e consultas médicas. A gente faz o que pode. Mesmo com nossas limitações tentamos ajudar a sociedade.

"Nossa intenção não é ensinar lutar e sim formar cidadãos com caráter e comprometidos com o bem-estar do próximo, para que no futuro eles possam também se sensibilizar com as causas sociais e se incomodar diante de injustiça e outros problemas presentes no cotidiano da população mais pobre".

Frutos

Mesmo com pouco tempo em atividade, os frutos do trabalho já apareceram e não cabem mais nos domínios da pequena cidade da Zona da Mata.

- Parecis nunca tinha sido representado com karatê na fase estadual dos Jogos Escolares de Rondônia, Joer. Esse ano tivemos dois vice campões e uma atleta se sagrou campeã na modalidade. Acredito que sem o trabalho da associação esse resultado jamais teria sido alcançado - aponta.

Ademir Izidoro Gois Neto, de 13 anos, é um dos participantes abraçados pelo projeto e mesmo com pouco tempo de participação ele já se considera uma nova pessoa.

– Entrei por incentivo de meu pai que já praticou karatê e de minha mãe que é atleta de judô. Na verdade, eu era muito bagunceiro na escola, depois que comecei a praticar o karatê passei a ter mais responsabilidade e ser mais estudioso. Também têm os resultados esportivos. Hoje sou faixa laranja e já participei de seis campeonatos no estado, ganhei três em primeiro e os outros e em segundo e terceiro - conta.

Assim como o projeto deu proporcionou Neto a colher bons frutos, ele pretende continuar semeando a boa semente na vida de outras pessoas que precisam de um pouco do adubo da esperança e da oportunidade.

- Meu objetivo em primeiro lugar é aprender tudo sobre karatê. Depois me dedicar bastante para conquistar a faixa preta e continuar competindo e tendo bons resultados e, quem sabe futuramente participar das Olimpíadas. Também sou muito grato por tudo que o sensei tem feito por mim e por todos os alunos da associação, pois sempre ouço muitos pais falando que o projeto foi a melhor coisa para os filhos deles - diz o jovem.

Frustações

Os resultados positivos não conseguem aliviar a dor que a falta de apoio causa em várias iniciativas como essa. Muitas vezes interrompe alguns sonhos e perspectivas dos envolvidos no projeto. A falta de transporte é o principal entrave, pois muitas vezes a associação não tem como arcar com os custos e os alunos acabam tendo que desistir de algumas competições.

A maior frustração aconteceu em 2016, quando nove atletas não puderam participar do Campeonato Brasileiro em Salvador (BA), por não ter recursos para viajar até a capital baiana.

Hernani Cardoso Costa, de 27 anos, faz parte do grupo de adultos que participa do projeto. Ele que nunca tinha praticado karatê, foi um dos classificados para o Brasileiro, mas acabou ficando em casa.

- Quando o Bruno me disse que tinha dado aula em outros municípios, dei a sugestão a ele para abrir uma academia aqui em Parecis. Com o início do projeto, comecei a treinar, gostei, passei a competir e alcancei bons resultados. Esse é um esporte que sempre quis fazer, mas nunca tinha tido oportunidade. Com o karatê passei a sentir uma coisa diferente, o sabor da vitória. Infelizmente não conseguimos participar do Brasileiro, mas acredito que novas oportunidades virão - aponta.

Superação

Em fevereiro de 2016, Bruno Oliveira sofreu um forte golpe, a morte do pai, seu maior incentivador no karatê.

- Quando meu pai morreu eu perdi o sentido de tudo. Nada mais tinha graça em minha vida. Meu pai sempre teve vontade de praticar karatê, mas nunca teve condições. Com isso, ele passou a me incentivar a entrar no esporte. Nem sempre podia me mandar para competições ou pagar as mensalidades para treinar quando eu era criança, mas sempre arrumou um jeito de ajudar e graças ao esforço dele consegui ser bi-campeão brasileiro e participei de vários torneios. Por isso, a perda dele foi muito dura para mim - conta.

Seguindo a cartilha de todo bom competidor, que diz que após ir ao chão é preciso levantar, mudar as estratégias e recomeçar, Bruno se dedicou de corpo e alma ao projeto e encontrou um novo sentido para a vida.

- A academia e essas crianças representam muito para mim. Elas me ajudaram a superar a perda de meu pai, meu grande incentivador. Foi com elas e com o apoio de minha esposa e amigos que eu tomei coragem para começar o trabalho do zero aqui em Parecis. Graças a Deus têm dado ótimos frutos. Minha intenção é atender o maior número possível de crianças, pois sei que não é fácil pagar as despesas para treinar em uma academia. Assim posso retribuir um pouco do que meu pai fez comigo no passado - expõe.

 

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